
Dada a sua relevância nas empresas, a gestão do capital de giro merece atenção redobrada, como a capacidade de tomar decisões financeiras mais informadas, visando reduzir a dependência dos empréstimos, melhorar o resultado operacional e reduzir o risco financeiro.
Apesar de ser um dos elementos mais críticos da saúde financeira das empresas, a gestão do capital de giro ainda é subestimada na maioria das análises corporativas. Muitos gestores enxergam o capital de giro como uma variável estática, apenas um número entre o ativo e o passivo circulante. No entanto, o que poucos percebem é que, se mal avaliado, esse indicador pode mascarar ineficiências, inflar as necessidades de caixa e levar a decisões financeiras equivocadas.
No mercado percebe-se que as empresas ainda seguem as teorias clássicas acadêmicas originadas no século passado. Na realidade, surgiram novas teorias, com novos olhares, mais eficientes, porém não houve a devida atualização no mundo acadêmico, tampouco no corporativo. É nesse contexto que surge o método do Capital de Giro Operacional Líquido (CGOL) desenvolvido dentro da abordagem de criação de valor, o Método VEC® (Valor Econômico Criado).
Trata-se de uma evolução conceitual e prática do cálculo tradicional do capital de giro, voltada para atender as reais necessidades da gestão contemporânea. Ao separar as contas operacionais das financeiras e aplicar uma visão integrada ao ciclo operacional da empresa, o CGOL fornece insights precisos, acionáveis e diretamente vinculados à melhoria dos resultados da operação e ao aumento da criação de valor da empresa.
O problema: Um modelo ultrapassado ainda domina o mercado
Grande parte das empresas, mesmo as de capital aberto e com governança estruturada, falham em capturar a imagem incompleta trazida pelo método tradicional ao calcular o capital de giro.
Sua fórmula é:
I – Cálculo com o método tradicional de capital de giro (CG)

Essa fórmula ignora distinções fundamentais entre contas operacionais e financeiras. Itens como aplicações financeiras e os empréstimos de curto prazo, por exemplo, entram nesse cálculo, embora nada tenham a ver com o ciclo operacional da empresa. O resultado é uma fotografia distorcida: indicadores superestimados e um falso senso de segurança ou de urgência, fatos que afetam diretamente as decisões e a qualidade dos resultados.
O CG tradicional pode até funcionar como uma métrica de análise contábil, mas está longe de ser uma ferramenta para gestão financeira. E, quando o assunto é otimização de caixa, redução de custos financeiros e criação de valor a longo prazo, a precisão é tudo e responde.
A solução: CGOL como ferramenta gestão financeira
A proposta do método VEC® para o capital de giro é simples, mas poderosa: focar nas contas operacionais, porque são elas que compõe o ciclo financeiro da empresa. Isso leva à seguinte fórmula:
II – Cálculo adotado pelo Método VEC® de criação de valor do capital de giro (CGOL):

Essa mudança de procedimento técnico muda a realidade financeira da empresa. O uso do CGOL fornece uma visão clara das necessidades reais de financiamento do negócio, com base em operações de fato, como contas a receber, estoques, contas a pagar, fornecedores e outras contas operacionais. Em vez de medir capital disponível, mede-se o capital necessário para manter o negócio girando.

Resultado da comparação entre os dois métodos de Capital de Giro
O conhecimento claro das necessidades de capital de giro não só assegura a continuidade das operações, mas também impacta diretamente as melhorias dos resultados, a geração de caixa, na evolução da criação de valor, com aumento do valor da empresa no mercado.
Comparações na prática: CG Tradicional versus CGOL
Para demonstrar as diferenças práticas entre os dois métodos de análise, realizamos uma análise com dados reais ao longo de cinco anos de 2020 a 2024. São quatro empresas brasileiras de setores distintos. Constata-se de forma inequívoca, as vantagens detectadas pelo uso do método do CGOL, como:
- Valor do Capital de Giro: Representa o correto valor financeiro de capital de giro necessário para bancar as operações. Ele é sempre menor em valores absolutos;
- Ciclo financeiro ou de caixa: Representa o número de dias do ciclo financeiro calculado, é verdadeiro e inferior;
- Necessidades de Capital de Giro: A informação é segura, certa e corresponde a real necessidade de recursos financeiros que a empresa precisa para bancar as operações.
Conclusão: o uso do método de CG tradicional é incompleto, sempre tende a superestimar os valores do capital de giro das empresas, o que resulta em decisões errôneas da gestão financeira e destruição de valor.
Análise comparativa do CG Tradicional versus o método CGOL
Nas quatro tabelas, compara-se os resultados entre os dois métodos em diferentes empresas, onde avalia-se os principais indicadores e KPIs para a análise do Capital de Giro.
Tabela 1: Empresa do setor Auto Indústria (R$ milhões)

Fonte: Banco de dados do Método VEC® com as empresas de Governança Corporativa da B3
Resumo dos resultados:
- Capital de Giro: O valor médio do CG tradicional foi 59% superior ao do CGOL.
- Ciclo Financeiro: Redução de 13 dias no CGOL.
- Necessidades de Capital de Giro: Redução de 13 pontos percentuais ao utilizar CGOL.
Esse exemplo mostra como o método tradicional de CG pode superestimar o valor do capital necessário para operar, resultando em excesso de endividamento e imobilização desnecessária de recursos.
Tabela 2: Empresa do setor de Varejo (R$ milhões)

Fonte: Banco de dados do Método VEC® com as empresas de Governança Corporativa da B3
Resumo dos resultados:
- Capital de Giro: O cálculo do CG tradicional é 152% maior.
- Ciclo Financeiro: A redução é de 10 dias com CGOL.
- Necessidades de Capital de Giro: Diminuição é relevante, de 7 pontos percentuais.
As diferenças aqui indicam um grande potencial de liberação de caixa, recursos que poderá ser direcionado para reinvestimento no negócio ou redução de dívida financeira. Todos os indicadores calculados pelo método tradicional de CG estão superdimensionados.
Tabela 3: Empresa do setor de Indústria (R$ milhões)

Fonte: Banco de dados do Método VEC® com as empresas de Governança Corporativa da B3
Resumo dos resultados:
- Capital de Giro: O cálculo do CG tradicional 183% superior.
- Ciclo Financeiro: Há uma redução de 10 dias.
- Necessidades de Capital de Giro: Diminuição é expressiva, de 32 pontos percentuais.
Essa redução nos indicadores demonstrados pelo CGOL representa uma reconfiguração completa das necessidades de financiamento de curto prazo, ou seja, constata-se que é menor a necessidade de capital de giro para bancar a operação.
Tabela 4: Empresa setor de Alimentos (R$ milhões)

Fonte: Banco de dados do Método VEC® com as empresas de Governança Corporativa da B3
Resumo dos resultados:
- Capital de Giro: A diferença no cálculo é gritante, o CG tradicional 3.965% maior
- Ciclo Financeiro: Demonstra redução de 27 dias.
- Necessidades de Capital de Giro: A diminuição é significativa, de 23 p.p.
Esse caso é emblemático: mostra como a visão tradicional de CG pode levar a uma distorção brutal da real necessidade de recursos, comprometendo a gestão e a eficiência financeira da empresa.

Conclusão: A decisão está nas mãos dos gestores

A adoção do CGOL otimiza os processos internos, as decisões e representa uma opção estratégica financeira, que melhora a criação de valor e a sustentabilidade econômica do negócio.
Trata-se de mudar o foco: de informações passivas para uma gestão proativa do capital de giro. Empresas que incorporam o método VEC® não apenas identificam desperdícios ocultos, mas reposicionam sua estrutura financeira para criar mais valor com menos risco. A gestão do CGOL é, portanto, mais que uma métrica, ela representa um ativo competitivo.
O foco é garantir vantagens diferenciadas no mercado, longevidade, ampliar a criação de valor, com o objetivo de aumentar o valor da empresa no mercado.
A pergunta não é se vale a pena mudar.
É: quanto capital sua empresa está carregando sem o devido resultado?
Artigo originalmente publicado em: https://revistaanefac.org.br/2025/10/09/um-problema-para-digerir-a-ma-gestao-do-capital-de-giro-destroi-o-valor-das-empresas/
