Link para a edição da Revista ADM-Pro: https://crasp.gov.br/artigos/oscar-malvessi-ilusao-ebitda
O EBITDA é o indicador preferido pelo mercado e empresas, mas usá-lo como métrica de geração de caixa é uma armadilha perigosa. Muito simples e de cálculo rápido, ele é utilizado para comparações, operações de crédito e outras. E quais são os problemas: ignora elementos críticos como necessidades de capital de giro, pagamento de imposto de renda e custo do capital, fatores que definem a real sustentabilidade econômico-financeira.
Na visão de gestão financeira de curto prazo, o Fluxo de Caixa Operacional (FCO), ao contrário, traduz com precisão a efetiva geração de caixa da operação. Ao integrar dados das Demonstrações de Resultados e do Balanço Patrimonial, oferece informação fiel da liquidez, define a necessidade de capital de giro e orienta decisões estratégicas.
As diferenças na prática são: enquanto o EBITDA pode criar a ilusão de sobra de caixa, o FCO revela se a empresa, com suas operações, realmente gera recursos para sustentar seu negócio e investir.
O discurso de que “o EBITDA representa a geração de caixa” é uma das maiores armadilhas financeiras aceitas pelo mercado. As instituições financeiras utilizam esse indicador como referência para covenants na liberação de crédito. Acrescenta-se a sua facilidade de calcular e intensa divulgação pelas empresas, observa-se que o EBITDA é adotado como se fosse uma ferramenta legítima e eficiente para gestão financeira do caixa. Resulta que as narrativas do mercado focadas em EBITDA encobrem a verdadeira situação financeira.
A realidade é comprovada ao detectarmos informações como: nos últimos cinco anos (2020 a 2024) constatou-se que 43% das empresas do IGC (Índice de Governança Corporativa da Bovespa) não conseguiram gerar caixa, sequer para pagar o endividamento de curto prazo. Também se verificou que o EBITDA foi, em média, 54% superior ao valor do Fluxo de Caixa Operacional (FCO). Em outras palavras: o EBITDA diz que o valor é de R$154 mil, quando o caixa efetivo disponível é de apenas R$100 mil.
Chama atenção a magnitude dessa diferença, pois representa um grande risco para as empresas. Causa estranheza que os agentes financeiros, executivos e empresas aceitem uma medida com esse nível de discrepância entre esses dois indicadores, sem muitos questionamentos. Desta forma, fica claro que o investidor ou gestor que acredita que o EBITDA representa geração de caixa, corre o risco de achar que a empresa tem sobra de caixa, quando na verdade ela precisa de mais dinheiro do que dispõe para manter a sua operação.
Qual o problema desse abismo de informações? O EBITDA cria a ilusão de bons resultados financeiros, mas, na prática, essa informação não é financeira, ela é contábil, e essas empresas historicamente não conseguem honrar seus compromissos financeiros. A situação é recorrente, muitas apelam a sucessivos refinanciamentos e hoje convivem com um risco crescente de recuperação judicial, quebra e destruição de valor ao acionista
O EBITDA pode servir para apresentações institucionais, mas não serve como métrica efetiva de gestão financeira. Na visão de curto prazo, o que sustenta a continuidade operacional, necessidades de investimentos e o controle das dívidas de curto prazo, é o caixa gerado na operação, ou seja, informações medidas pelo Fluxo de Caixa Operacional (FCO).
Assim sendo, constata-se que o EBITDA não é um indicador confiável para orientar a gestão financeira de curto prazo, pois ignora componentes relevantes, como o ciclo financeiro da operação, o impacto dos encargos do Imposto de Renda e as necessidades de capital de giro para bancar as operações. No curto prazo, somente a geração de caixa medida pelo FCO é capaz de refletir, com fidelidade, a real posição financeira e a liquidez da empresa. Portanto, deve ser a métrica a ser priorizada na gestão e no monitoramento diário.
Comparativo das vantagens e desvantagens do uso do EBITDA:
Vantagens do EBITDA
- Cálculo simples: fácil de calcular, pois considera somente uma parte da Demonstração do Resultado.
- Referência para crédito: é indicador para a definição de crédito, covenants sobre os empréstimos, análise de risco financeiro e alavancagem financeira.
- Comparabilidade: sua simplicidade facilita o uso com múltiplo de operações de M&A, pois facilita análises entre empresas comparáveis.
Desvantagens do EBITDA
- Ignora o capital de giro: despreza as necessidades de financiamento para bancar as operações e o nível de capital investido.
- Despreza os encargos do IR: não considera o impacto do Imposto de Renda como saída efetiva de caixa.
- Ignora o custo do capital: pressupõe, equivocadamente, que o capital do acionista é gratuito e, ainda, que os bancos e investidores estariam dispostos a emprestar dinheiro à empresa com custo zero.
- Falta de disciplina: não tem como aliado a disciplina financeira como instrumento de decisões.
- Desalinhamento de interesses: não integra os objetivos dos acionistas com o dos gestores.
- Indicador inadequado para bônus: pelo fato de desconsiderar o capital investido e seu custo, não deve ser usado para definir incentivos e remuneração variável para os gestores. Na prática, pode estimular a distribuição de dividendos e remuneração variável sem geração real de valor, corroendo a riqueza do acionista.
- Desconexão com dividendos: não mede a real capacidade da empresa remunerar os acionistas de forma economicamente sustentável.
Uma analogia: suponha um piloto cruzando o oceano Atlântico, mas ignorando todos os instrumentos disponíveis do seu cockpit e guiando-se apenas por um único relógio da aeronave. Com certeza, em função do risco, seria impensável permitir que ele conduzisse dessa forma. Exigir-se-ia o uso de todos os recursos disponíveis para garantir segurança e precisão na navegação.
Infelizmente nas empresas o cenário é parecido: gestores e executivos muitas vezes ignoram ferramentas e princípios modernos de gestão financeira, como VBM (Gestão Baseada em Valor), EVA™ (Valor Econômico Agregado) ou o VEC® (Valor Econômico Criado), preferindo apoiar-se apenas em métricas simplificadas, incompletas e ilusória, como o EBITDA. O resultado disso é uma gestão míope, desassociada da realidade do mercado, pois desconsidera variáveis críticas para a sobrevivência, crescimento economicamente sustentável do negócio e visão de longo prazo.
Como instrumento de disciplina financeira nos negócios, o Fluxo de Caixa Operacional (FCO), ao contrário, integra dados das Demonstrações de Resultados com o do Balanço Patrimonial, captando de forma realista a dinâmica econômico-financeira da empresa. Não se trata de um indicador unidimensional, mas de uma métrica estratégica que entrega a verdadeira geração de caixa das operações e seu ciclo financeiro.
Além de não apresentar desvantagens, a gestão financeira com o uso do FCO demonstra diversas vantagens sobre o EBITDA, como:
- Institui disciplina financeira nos gestores, otimizando recursos e ampliando o lucro operacional.
- Revela a verdade financeira, pois mostra se a operação realmente sustenta o negócio.
- Demonstra as necessidades de capital de giro e o impacto do ciclo financeiro.
- Funciona como instrumento estratégico de mensuração financeira e decisão.
- Permite melhor planejamento tributário.
- Induz decisões que ampliam o crescimento e a competitividade da empresa.
É nesse ponto que a “ilusão do EBITDA” deixa de ser apenas um debate técnico e vira um problema de qualidade de análise, decisão e governança. Se bônus, covenants e narrativas de mercado continuam ancorados num indicador que ignora capital de giro, impostos de renda e custo de capital, o incentivo e as decisões da maioria das empresas são claros: aprovam-se projetos de investimentos que aumentam o EBITDA, mesmo que destruam valor em termos de FCO e VEC® (Valor Econômico Criado).
Ao adotar esses princípios com maior governança corporativa e capacitação dos gestores, as empresas fortalecem a sustentabilidade financeira e a criação de valor, preparando-se para enfrentar desafios e aumentar sua competitividade. Visando maior controle e efetividade nas decisões, destaca-se que os relatórios gerenciais devem identificar informações como o FCO, FCF (Fluxo de Caixa Livre), assim como informações efetivas de retorno como o uso do ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) e com a aplicação da metodologia de gestão de Criação de Valor-VEC®.
Valor não se improvisa, se constrói com gestão integrada, disciplina e visão estratégica de longo prazo que prestigia o crescimento do valor de mercado da empresa.
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